Pesquisas eleitorais sob suspeita: até que ponto o eleitor pode confiar nos números?

Nesta semana, voltou ao centro do debate público a divulgação de mais uma pesquisa Genial/Quaest sobre a corrida presidencial de 2026, que aponta Lula (PT) com ampla liderança sobre demais adversários. O levantamento, realizado em agosto de 2025, coloca o petista à frente em todos os cenários simulados de segundo turno – uma notícia aparentemente confortável para seus apoiadores e preocupante para seus opositores. Mas será que os brasileiros podem confiar cegamente nesses números ou seriam eles um retrato distorcido feito sob medida para influenciar o ambiente político e midiático?cartacapital+2

Pesquisa aponta vantagem, mas erros passados mancham credibilidade

Os resultados mais recentes da Quaest indicam que Lula oscila entre 43% e 48% das intenções de voto a depender do adversário, enquanto Jair Bolsonaro e outros nomes relevantes da oposição mal conseguem romper a barreira dos 35%. Embora a metodologia alegadamente siga standards científicos — amostra nacional de mais de 12 mil entrevistas, margem de erro de dois pontos percentuais — a confiança cega no trabalho dos institutos deveria ser motivo de preocupação e debate sério.cartacapital+1

Nas eleições passadas, erros graves e recorrentes dos principais institutos abalaram a credibilidade desses levantamentos. Em 2018, o desempenho de Jair Bolsonaro foi repetidamente subestimado. Já em 2022, diversas pesquisas mostraram vantagem maior para Lula do que se materializou nas urnas e falharam também ao prever segundos turnos que não aconteceram, caso emblemático do governo de Minas Gerais.

Tal histórico sugere que os critérios científicos de coleta de dados, ponderação e amostragem não conseguem captar de fato o país diverso, polarizado e imprevisível das ruas. Mais do que falhas estatísticas, crescem suspeitas de vieses estruturais nas pesquisas.

O fiasco da CPI das Pesquisas e a falta de responsabilização

Diante dos erros sucessivos, lideranças políticas tentaram instalar, ainda em 2022 e 2023, uma Comissão Parlamentar de Inquérito das Pesquisas. As acusações não eram apenas de equívoco técnico, mas de possível manipulação intencional dos dados e fabricação de cenários para favorecer determinadas candidaturas e influenciar, inclusive, o mercado. No entanto, o Congresso Nacional não levou a CPI adiante: sem investigação profunda ou responsabilização, as pesquisas continuaram sendo divulgadas livremente — e errando grosseiramente — nas eleições seguintes.globo+2

Esse quadro de absoluta ausência de consequências reforça uma cultura de impunidade. A deslegitimação dos institutos perante parcela do eleitorado cresce à medida que os erros não são explicados ou punidos. Para muitos analistas, a situação já é de crise de confiança.

Mídia e institutos: interesses entrelaçados?

Outro ponto sensível é o papel da imprensa tradicional, grande difusora das pesquisas eleitorais. Os veículos de mídia, que frequentemente encomendam e repercutem os levantamentos, raramente adotam postura crítica diante de erros e inconsistências. Ao contrário, dedicam ampla cobertura aos números apresentados, muitas vezes sem discutir metodologia, conflito de interesses financeiros ou a diferença entre “fotografia do momento” e tendência consolidada.cartacapital+2

Assim, pesquisas podem se tornar instrumentos de narrativa—não apenas de análise—e potencialmente influenciar a percepção pública de candidaturas que ainda estão em fase de construção.

O que resta ao eleitor

Diante desse cenário, a recomendação é clara e urgente: o eleitor brasileiro não deve tomar pesquisas eleitorais como verdades incontestáveis, nem guiar sua decisão de voto exclusivamente a partir dos números divulgados. É preciso desconfiar, examinar metodologias, buscar múltiplas fontes e observar como cada instituto errou (ou acertou) no passado. A prudência é necessária, pois em um ambiente intenso de disputa e interesses, a manipulação da opinião pública encontra terreno fértil na credulidade dos que se informam apenas por manchetes e supostos dados científicos.

Resumindo: até que haja real responsabilização — ou ao menos transparência total — dos institutos de pesquisa no Brasil, toda divulgação deve ser lida com ressalvas, e o eleitor deve exercitar o ceticismo crítico. O futuro da democracia agradece.

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Assessoria Cidadão Alerta

Referências:

  1. https://www.cartacapital.com.br/politica/aprovacao-ao-governo-lula-volta-a-subir-em-agosto-aponta-nova-pesquisa-quaest-veja-os-numeros/
  2. https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/08/18/quaest-faz-nova-pesquisa-sobre-avaliacao-do-governo-lula-e-corrida-presidencial-de-2026.ghtml
  3. https://www.cartacapital.com.br/politica/pesquisa-quaest-testa-desempenho-de-lula-em-cenarios-de-2o-turno-contra-candidatos-da-direita-veja-os-resultados/
  4. https://static.poder360.com.br/2025/08/genial-quaest-eleicoes-ago2025.pdf
  5. https://www.youtube.com/watch?v=9oZtwMizsMo
  6. https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/pesquisa-genial-quaest-governadores-presidenciaveis-agosto-2025/
  7. https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/08/20/quaest-avaliacao-do-governo-lula.ghtml