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Inteligência Artificial deve transformar empregos no Brasil

Estudo indica que tecnologia deve reorganizar funções, pressionar profissões qualificadas e exigir requalificação da força de trabalho no país

A inteligência artificial (IA) avança com velocidade inédita sobre os sistemas produtivos e já redefine a organização do trabalho em escala global. No Brasil, embora o debate frequentemente evoque cenários de ruptura, como o alerta do Fundo Monetário Internacional de que até 60% dos empregos podem ser afetados, um estudo técnico da Câmara dos Deputados indica uma realidade mais complexa: a tecnologia tende a produzir simultaneamente substituição, reorganização e criação de atividades, com efeitos heterogêneos sobre trabalhadores e setores.

O levantamento “Inteligência Artificial e seu impacto no mercado de trabalho – uma análise introdutória” sustenta que a história econômica mostra um padrão recorrente: grandes inovações reconfiguram o emprego, mas raramente eliminam o trabalho humano em larga escala sem gerar novas funções. A IA segue essa lógica ao transformar áreas como manufatura, saúde e finanças.

A diferença, agora, está na velocidade e na amplitude dessa transformação.

Quem deve ser mais afetado

Dados citados no estudo, baseados em relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), indicam que os trabalhadores administrativos estão entre os mais expostos à IA generativa: 24% das tarefas apresentam alta exposição e 58%, exposição média.

Entre as ocupações com maior potencial de automação aparecem digitadores, atendentes de call center, agentes de viagem, recepcionistas e profissionais de contabilidade.

Ao mesmo tempo, outras funções podem se beneficiar da tecnologia, liberando tempo para tarefas mais complexas, caso de educadores, desenvolvedores de software e profissionais da saúde, entre muitos outros.

Essa dualidade ajuda a explicar por que a literatura especializada evita previsões simplistas sobre o fim do trabalho.

O impacto real pode ser menor, ao menos no curto prazo

Segundo a estimativa apresentada no relatório, entre 11% e 14% dos empregos podem ser “melhorados” pela IA, enquanto 0,5% a 5,5% seriam potencialmente automatizáveis.

Para países de renda médio-superior, grupo em que o Brasil se enquadra, o impacto direto chegaria a cerca de 2,5% do total de empregos, com maior incidência sobre secretários, digitadores, atendentes bancários e contadores.

Ainda assim, há uma zona relevante de incerteza: aproximadamente 18% dos trabalhadores brasileiros podem ter efeitos difíceis de prever diante da nova tecnologia.

O estudo também destaca que os impactos tendem a ser maiores para empregos femininos, reforçando a necessidade de políticas públicas sensíveis às desigualdades estruturais do mercado laboral.

Diferentemente de ondas anteriores de automação, há evidências de que profissionais altamente qualificados podem estar entre os mais negativamente afetados.

Isso ocorre não necessariamente pela substituição integral, mas pela fragmentação das tarefas, processo que reduz a qualificação exigida e pode pressionar salários para baixo.

Engenheiros, médicos e roteiristas, por exemplo, podem ter parte de suas atividades reorganizadas pela tecnologia.

Essa leitura relativiza a narrativa predominante de que apenas empregos operacionais estariam ameaçados.

Produtividade versus desigualdade

Há estudos que associam a IA à redução das diferenças de produtividade entre trabalhadores, o que poderia diminuir desigualdades dentro das ocupações.

Outros, porém, apontam o risco inverso: a tecnologia poderia elevar ainda mais os rendimentos de profissionais altamente escolarizados.

Essa disputa de interpretações revela que o impacto final dependerá menos da tecnologia em si e mais das escolhas econômicas e regulatórias feitas pelos países.

Brasil corre para não ficar para trás

O governo federal lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (2024-2028), que prevê R$ 23 bilhões em investimentos, incluindo crédito público e recursos não reembolsáveis.

Entre as prioridades estão infraestrutura digital, financiamento à inovação e a chamada “nuvem soberana” para armazenamento de dados governamentais.

Apesar do esforço, o próprio estudo sugere que países mais ricos continuam na dianteira tecnológica, fator que pode ampliar assimetrias globais caso economias emergentes não acelerem suas estratégias.

Entre o alarme e a realidade

O alerta internacional de um possível tsunami no emprego ajuda a dimensionar o tamanho da mudança, mas pode simplificar uma dinâmica mais sofisticada. A experiência histórica indica que revoluções tecnológicas tendem a deslocar trabalhadores antes de extinguir o trabalho, e que novas ocupações surgem com frequência.

O risco maior, portanto, não é apenas a automação, mas a falta de qualificação para uma economia em transformação.

Nesse ponto, o estudo converge com organismos internacionais ao defender investimentos em educação tecnológica, requalificação profissional e políticas que direcionem o progresso para setores capazes de elevar emprego e salários.

Sem essa estratégia, a inteligência artificial pode aprofundar desigualdades em vez de impulsionar o desenvolvimento.

O futuro ainda está em aberto

Há um consenso emergente: a IA não é apenas uma ferramenta de eficiência, é um vetor de reorganização econômica. Seus benefícios dependerão da capacidade dos países de transformar ganhos de produtividade em prosperidade compartilhada.

Para o Brasil, o desafio não parece ser apenas evitar o pior cenário, mas garantir que a nova revolução tecnológica não encontre um mercado de trabalho despreparado. A história mostra que tecnologia raramente espera. O emprego, por sua vez, sempre precisa se adaptar.

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Assessoria Cidadão Alerta

FONTES

– https://www.estadao.com.br/opiniao/um-tsunami-no-mercado-de-trabalho/

– https://bd.camara.leg.br/bd/items/713c3e0c-af16-449a-814c-e622ea058f7d

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