Fundição Guará transforma vidro descartado em arte, inclusão social e reconhecimento internacional

Em um galpão de Matinhos, no litoral do Paraná, fornos aquecem fragmentos de vidro que seriam descartados. Das altas temperaturas surgem peixes, aves, luminárias, esculturas e obras inspiradas na Mata Atlântica. O espaço abriga a Fundição Guará, iniciativa que une arte, sustentabilidade e inclusão social por meio da transformação de resíduos vítreos em peças de alto valor cultural e ambiental.

Instalada no litoral paranaense, a Fundição Guará nasceu com a proposta de utilizar a arte vidreira como ferramenta de transformação social e ambiental. O projeto reúne formação profissional, economia criativa e reciclagem artesanal, criando oportunidades para populações em situação de vulnerabilidade e contribuindo para a redução de resíduos descartados no meio ambiente.

O litoral do Paraná possui forte potencial turístico e cultural. A proposta da Fundição Guará foi justamente integrar esses elementos em um único projeto: transformar vidro descartado em arte, gerar oportunidades de renda e promover capacitação profissional para comunidades locais.

A iniciativa oferece um curso gratuito anual de vitrofusão, priorizando mulheres em situação de vulnerabilidade social, comunidades caiçaras, moradores da área rural e estudantes da rede pública. Além da capacitação, os participantes recebem apoio para permanência nas atividades e aprendem técnicas que podem ser transformadas em geração de renda.

Entre as metas do projeto está a retirada anual de duas toneladas de resíduos vítreos do meio ambiente, transformando esse material em obras de arte, peças decorativas e produtos de design inspirados na cultura e nos patrimônios naturais do litoral paranaense.

A Fundição Guará também tem produção de videoaulas, cartilhas técnicas acessíveis, conteúdos digitais e uma plataforma de comercialização das peças produzidas pelos alunos, ampliando o alcance do conhecimento e fortalecendo a economia criativa da região.

O trabalho desenvolvido pelo projeto dialoga diretamente com conceitos cada vez mais valorizados globalmente, como economia circular, sustentabilidade e ESG (Ambiental, Social e Governança). A iniciativa recebeu o Selo SESI ODS 2025, reconhecimento concedido a projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Mais do que ensinar uma técnica artística, a Fundição Guará busca demonstrar que resíduos podem se transformar em oportunidades e que a arte pode ser um instrumento efetivo de desenvolvimento social, ambiental e econômico no litoral do Paraná.

Por trás da iniciativa está a artista vidreira e designer curitibana Désirée Sessegolo, nome reconhecido internacionalmente por sua contribuição à arte do vidro e que hoje dedica sua experiência à formação de novos artistas e à inclusão social por meio da Fundição Guará.

Nascida em Curitiba, Désirée acompanha há décadas o desenvolvimento da arte vidreira contemporânea no Brasil. Integrante do primeiro e mais antigo grupo de artistas vidreiros do país, criado na capital paranaense em 2008, ela construiu uma trajetória marcada pela pesquisa e pela inovação técnica. Ao longo dos anos, desenvolveu processos próprios de criação utilizando materiais acessíveis à realidade brasileira, o que contribuiu para ampliar o alcance da arte em vidro no país.

Seu trabalho já foi reconhecido por instituições como o Museu Alfredo Andersen, a Casa João Turin, o Museo del Vidrio de Bogotá, a International Biennale of Glass e a The Venice Glass Week. Em mais de 15 anos dedicados à arte do vidro, participou de mais de 50 exposições e eventos nacionais e internacionais, consolidando-se como uma das principais referências brasileiras na área.

Hoje Désirée integra o portfólio de artistas globais do Homo Faber Guide, chancelado pela Michelangelo Foundation, e suas obras integram acervos e coleções especializadas em diferentes países. O reconhecimento internacional é resultado de décadas de experimentação artística e do desenvolvimento de uma linguagem própria dentro da arte vidreira contemporânea.

A técnica que tornou Désirée conhecida internacionalmente vai além da vitrofusão tradicional. A artista é criadora do Vidro Celular, denominação de uma técnica exclusiva desenvolvida a partir de anos de pesquisa, que explora estruturas orgânicas e texturas únicas obtidas pelo comportamento do vidro submetido a altas temperaturas. O método tornou-se uma das marcas de sua produção artística e contribuiu para projetar seu trabalho em importantes mostras internacionais.

Embora a vitrofusão seja amplamente difundida em países com tradição vidreira, como Itália, Estados Unidos e Reino Unido, ainda permanece pouco explorada no Brasil. O trabalho desenvolvido por Désirée busca justamente ampliar esse conhecimento, demonstrando que resíduos de vidro podem ser transformados em obras de arte, peças de design, luminárias e objetos decorativos de alto valor cultural e ambiental.

Imagem: Fundição Guará