A armadilha das cotas identitárias: reflexões sobre inclusão e polarização


Recentemente, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) anunciou a criação de cotas para pessoas que se autodeclaram trans, travestis ou não binárias em seus cursos de graduação. A medida reserva uma vaga em cursos com até 30 alunos e duas vagas em turmas maiores, sendo parte de uma política afirmativa que requer dos candidatos um “relato de vida” detalhando sua trajetória de transição e afirmação de identidade de gênero[1]. Embora a iniciativa tenha como objetivo ampliar a inclusão social, ela gerou intensos debates sobre seus critérios, eficácia e implicações éticas.
Um Debate Necessário
A discussão sobre cotas identitárias é complexa e polarizadora. Por um lado, há quem defenda que políticas como essa são essenciais para corrigir desigualdades históricas e garantir maior representatividade de grupos marginalizados. Por outro lado, críticos apontam que a falta de critérios claros pode abrir espaço para arbitrariedades e preconceitos no processo seletivo[1]. Além disso, questiona-se se as barreiras enfrentadas por pessoas LGBTQIA+ no acesso ao ensino superior são comparáveis às vivenciadas por grupos historicamente excluídos, como negros e indígenas[1].
A crítica também se estende ao impacto das cotas identitárias na sociedade como um todo. Segundo o cientista político Yascha Mounk, políticas que priorizam identidades específicas podem alienar grande parte da população e reforçar divisões sociais. Ele chama isso de “armadilha identitária”, argumentando que tais iniciativas podem ser contraproducentes ao criar uma competição entre grupos por recursos e reconhecimento[2][3].
O Papel das Políticas Identitárias no Brasil
No Brasil, as políticas identitárias têm sido amplamente adotadas pela esquerda como forma de combater desigualdades estruturais. Entretanto, essa abordagem tem gerado críticas até mesmo dentro do espectro progressista. Alguns apontam que o foco excessivo em categorias identitárias pode enfraquecer a luta por igualdade econômica e universal[4][5]. Esse dilema é evidente na discussão sobre cotas: enquanto alguns defendem sua expansão para incluir mais grupos, outros sugerem que o critério de renda familiar seria uma alternativa mais objetiva e inclusiva[1].
Além disso, há preocupações sobre como essas políticas podem contribuir para a polarização política. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, o avanço do identitarismo na esquerda tem sido acompanhado pelo crescimento da extrema direita populista. Essa dinâmica cria um ciclo vicioso onde cada lado reforça as divisões sociais ao invés de buscar valores compartilhados[2][5].
Educação Básica: A Solução Estrutural
Uma crítica recorrente às cotas identitárias é que elas funcionam como soluções paliativas para problemas estruturais mais profundos. A baixa qualidade da educação básica no Brasil perpetua desigualdades que não podem ser resolvidas apenas com ações afirmativas no ensino superior. Investir na educação pública universal seria uma forma mais eficaz de garantir oportunidades iguais para todos os brasileiros, independentemente de sua identidade ou condição socioeconômica[1].
Conclusão
A implementação das cotas para pessoas trans pela Unicamp traz à tona questões fundamentais sobre inclusão, justiça social e os limites das políticas identitárias. Embora essas iniciativas sejam bem-intencionadas, elas enfrentam desafios práticos e éticos que precisam ser cuidadosamente avaliados. Ao mesmo tempo, é crucial que o debate sobre cotas não obscureça a necessidade urgente de melhorias na educação básica — um passo essencial para construir uma sociedade verdadeiramente igualitária.
Portanto, enquanto as cotas permanecem necessárias em um contexto de desigualdades persistentes, é imperativo buscar soluções mais abrangentes e menos divisivas. Somente assim será possível avançar rumo a uma sociedade onde todos tenham acesso às mesmas oportunidades sem cair na armadilha das divisões identitárias.
Assessoria Cidadão Alerta
Citações:
- https://www.estadao.com.br/opiniao/a-armadilha-das-cotas-identitarias/
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjk7kyg6ryyo
- https://ihu.unisinos.br/categorias/635687-a-armadilha-da-identidade
- https://revistaraca.com.br/a-armadilha-do-identitarismo-para-o-movimento-negro-brasileiro/
- https://oglobo.globo.com/opiniao/demetrio-magnoli/coluna/2024/09/politicas-identitarias-estao-em-declinio-nos-eua.ghtml