Facções criminosas viraram pauta internacional. E a solução brasileira, onde está?
Elis Domingues*
Nas últimas semanas, o debate político brasileiro ganhou mais um capítulo curioso. Primeiro, surgem notícias sobre conversas entre autoridades brasileiras e o presidente dos Estados Unidos. Depois, cresce a repercussão da decisão americana de classificar facções criminosas, incluindo o PCC, como organizações terroristas. Em seguida, o país inteiro passa a discutir o que Washington pensa sobre o crime organizado no Brasil.
Mas existe uma pergunta muito mais importante: o que o próprio Brasil está fazendo para enfrentar esse problema?
O Brasil convive há décadas com organizações criminosas que controlam territórios, movimentam bilhões de reais, atuam dentro e fora dos presídios, utilizam rotas internacionais de tráfico e desafiam diariamente as forças de segurança. Ainda assim, parte do debate nacional parece mais preocupada com a opinião dos Estados Unidos do que com a eficiência das nossas próprias ações.
Não importa se Donald Trump conversa com Lula, com Flávio Bolsonaro ou com qualquer outra liderança política brasileira. Os interesses dos Estados Unidos serão sempre os interesses dos Estados Unidos. Isso não deveria surpreender ninguém. O que realmente deveria preocupar a população é saber quem está defendendo os interesses do Brasil.
A classificação de uma facção criminosa como organização terrorista pode gerar consequências diplomáticas, financeiras e jurídicas. É um tema relevante. Mas ela não substitui aquilo que realmente precisa ser feito dentro das nossas fronteiras.
A população espera respostas concretas. Mais inteligência policial. Mais integração entre estados e governo federal. Mais combate à lavagem de dinheiro. Mais controle das fronteiras. Mais investimentos em tecnologia e segurança nos presídios. Mais eficiência na aplicação das leis. O que não falta ao Brasil são diagnósticos sobre o problema. O que continua faltando são ações compatíveis com a gravidade da situação.
Combater esse avanço exige planejamento permanente, cooperação institucional e decisões firmes. Por isso, a discussão central não deveria ser se outro país considera determinada facção uma organização terrorista. A questão principal é por que o Brasil ainda enfrenta tantas dificuldades para enfraquecer essas estruturas criminosas de forma definitiva.
A pergunta permanece aberta e merece reflexão: estamos discutindo o que outros países pensam sobre o crime organizado ou estamos cobrando das nossas autoridades as medidas necessárias para enfrentá-lo?
A solução para os problemas do Brasil não será encontrada em Washington. Ela deve ser construída em Brasília.
*Pré-candidata a deputada estadual no Paraná, Elis é bacharel em Administração e Direito, especialista em Gestão Estratégica, Políticas Públicas e Desenvolvimento de Pessoas.