A decisão do Brasil diante das tarifas dos EUA: pragmatismo ou obstinação?

A recente decisão do governo brasileiro de não negociar diretamente e não ceder às pressões tarifárias dos Estados Unidos marca um dos momentos mais delicados e complexos das relações comerciais entre os dois países nos últimos anos. Frente ao tarifaço de 50% imposto pelo governo Trump a partir de agosto de 2025 — atingindo cerca de 36% das exportações brasileiras — a postura oficial mistura resistência política, apelo à soberania e tentativas diplomáticas paralelas. Mas quais são as consequências práticas dessa abordagem e o que o Brasil tem (ou teria) a ganhar com uma estratégia mais pragmática, de negociação bilateral direta?

Quais os benefícios de negociar diretamente com os EUA?

Negociações bilaterais bem-sucedidas entre Brasil e Estados Unidos poderiam trazer avanços notáveis em vários âmbitos:

  • Redução ou supressão de tarifas e barreiras: O primeiro benefício claro seria minimizar os impactos das tarifas sobre setores estratégicos da economia brasileira, que hoje incluem commodities agrícolas, aço e manufaturados. O diálogo direto já permitiu, inclusive, algumas exceções — produtos foram poupados do tarifaço após pressões e aproximação de diplomatas brasileiros junto a agências e representantes americanos. globo+1
  • Previsibilidade e estabilidade comercial: Uma negociação bilateral efetiva aumenta a previsibilidade no ambiente de negócios, protege cadeias de valor integradas e atrai investimentos. Seriam abertas as portas para discussões sobre acordos de dupla tributação, facilitação de comércio, cooperação regulatória e outros instrumentos que fortalecem o comércio e o ambiente de investimentos mútuos. fcs.ufg+1
  • Fortalecimento do setor exportador: A composição da pauta exportadora do Brasil para os EUA tem alto valor agregado e envolve setores intensivos em tecnologia, como papel/celulose, aço, e insumos industriais, cuja sustentação é essencial para o equilíbrio da balança comercial e para o emprego interno. cnnbrasil
  • Ganhos diplomáticos e de influência: O Brasil aumentaria sua capacidade de interlocução em fóruns multilaterais. Um país mais integrado ao bloco ocidental, capaz de negociar diretamente com a maior economia do mundo, amplifica sua influência internacional — ao contrário do risco de isolamento.

Malefícios da postura atual: consequências imediatas e riscos futuros

A opção brasileira por não negociar politicamente — e recorrer a medidas multilaterais ou retaliações via OMC — traz implicações negativas de curto e longo prazo:

  • Perda de espaço e protagonismo em Washington: A ausência de aliados influentes e canais de diálogo robustos em Washington deixa o Brasil isolado, com pouco poder de pressão para reversão das medidas. Sem a capacidade de mobilizar lobbies, como fazem México ou Israel, a pauta brasileira perde relevância. gazetadopovo+1
  • Déficit comercial crescente: O saldo comercial entre Brasil e EUA já é deficitário para o Brasil, com aumento de 600% no rombo em 2025 comparado a 2024, atingindo US$2,23 bilhões só de janeiro a julho. A manutenção do tarifaço tende a aprofundar esse desequilíbrio, prejudicando a competitividade dos exportadores. veja.abril+1
  • Desestímulo ao investimento estrangeiro: Um ambiente comercial instável e sujeito a escaladas de tensões retira o apetite de investidores internacionais, reduzindo a entrada de capital, tecnologia e projetos estratégicos nas cadeias produtivas brasileiras. cnnbrasil
  • Retaliação como “tiro pela culatra”: Especialistas avaliam que uma guerra de tarifas com os EUA só tende a prejudicar mais o Brasil do que os americanos, dado o peso relativo das exportações brasileiras para o mercado dos EUA. O efeito rebote de restrições recíprocas teria impacto limitado nos Estados Unidos, mas severo sobre o agronegócio, a indústria e a balança de pagamentos do Brasil. gazetadopovo+1
  • Risco de isolamento e retaliação em bloco: Ao endurecer com os EUA e limitar o diálogo, o Brasil pode estimular outras medidas restritivas vindas de Washington ou do bloco ocidental, ampliando sanções e limitações, inclusive em questões cruciais como propriedade intelectual, investimentos e cooperação tecnológica. opeu+1

A armadilha da “soberania solitária”

Se, por um lado, declarações firmes do presidente brasileiro ecoam bem internamente e reforçam um discurso de soberania, na prática o isolamento dificulta soluções reais para a economia. A experiência mostra que, mesmo diante da rigidez declarada de Trump, a pressão conjunta de setores produtivos e o engajamento da diplomacia empresarial foram essenciais para ampliar exceções e retirar parcialmente produtos do tarifaço. Ou seja: a negociação, mesmo indireta ou múltipla, mostra resultados práticos. cnnbrasil+1

Conclusão

O cenário atual exige mais pragmatismo do que retórica. Estabelecer um canal de negociação direta com os Estados Unidos pode ser, se não a saída definitiva, pelo menos o caminho mais racional para proteger setores estratégicos, preservar empregos e recolocar o Brasil num patamar de influência compatível com o seu peso regional. A manutenção da postura atual arrisca agravar déficits, desestimular investimentos e isolar ainda mais o país — em um cenário em que lideranças globais estão menos dispostas a “comprar” brigas em nome da reciprocidade abstrata.

A diplomacia realista pede negociação, especialmente entre desiguais. O Brasil precisa de resultados, não de bravatas.

NEWS LETTER

Assessoria Cidadão Alerta

Fontes:

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  2. https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/americo-martins/internacional/saiba-como-o-brasil-fez-chegar-aos-eua-mensagens-para-atenuar-tarifaco/
  3. https://fcs.ufg.br/n/129559-acordo-comercial-entre-bolsonaro-e-trump-chances-reais-ou-ilusao
  4. https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer_public/83/b2/83b2dc6a-8afc-43cf-813d-7cb9716f31f6/id_231928_acordo_evitar_dupla_tributacao_brasil_eua_web.pdf
  5. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/analise-brasil-importa-mais-do-que-exporta-aos-eua/
  6. https://www.gazetadopovo.com.br/economia/tarifaco-de-trump-vulnerabilidade-brasil/
  7. https://www.migalhas.com.br/depeso/434936/o-tarifaco-de-trump-teoria-dos-jogos-e-o-cerco-ao-brasil
  8. https://veja.abril.com.br/economia/como-anda-a-relacao-comercial-entre-brasil-e-estados-unidos-em-2025/
  9. https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/08/06/em-meio-ao-tarifaco-de-trump-brasil-tem-deficit-comercial-com-os-eua-pelo-7o-mes-seguido-em-julho.ghtml
  10. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/e-se-o-brasil-retaliar-os-eua-economistas-listam-riscos-da-reciprocidade/
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  14. https://www.infomoney.com.br/economia/economia-brasileira-deve-sentir-impacto-mas-suportar-tarifas-de-50-de-trump/
  15. https://www.infomoney.com.br/economia/tarifa-de-100-para-o-brasil-entenda-ameaca-dos-eua-por-comercio-com-a-russia/
  16. https://www.gov.br/mre/pt-br/consulado-washington/comunidade-brasileira/aposentadoria-acordo-brasil-eua
  17. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c2ezv3zg33po
  18. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/tarifaco-com-taxa-de-50-brasil-tem-semana-decisiva-para-negociar-com-eua/
  19. https://www.gov.br/previdencia/pt-br/assuntos/acordos-internacionais
  20. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/lei-magnitsky-quais-as-consequencias-e-como-fica-a-relacao-eua-brasil/