Leilão bilionário da ANP: avanços econômicos, retrocessos na soberania e desafios ambientais na nova fronteira petrolífera brasileira

O quinto leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), realizado em 17 de junho de 2025, consolidou-se como um marco para o setor de óleo e gás no Brasil, tanto pelo volume de recursos arrecadados quanto pelo debate que suscitou sobre soberania energética, participação estatal e questões ambientais. A seguir, apresento uma análise detalhada dos principais resultados e implicações desse certame.

Resultados financeiros e participação empresarial

O leilão, parte do 5º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão, ofertou 172 blocos exploratórios, dos quais 34 foram arrematados por nove empresas, incluindo gigantes como Petrobras, ExxonMobil, Chevron, CNPC, Shell, Karoon, PetroGal, Equinor e Dillianz1. O destaque ficou para a Bacia da Foz do Amazonas, responsável por 19 dos 34 blocos arrematados e por cerca de 85% do bônus total de assinatura, que atingiu R$ 844,3 milhões apenas nessa região 1, 2. No total, o leilão arrecadou R$ 989 milhões em bônus de assinatura, superando em mais de duas vezes a expectativa inicial do governo, que era de R$ 444 milhões 1, 3.

Além do bônus, a previsão de investimentos mínimos ficou em R$ 1,45 bilhão, também acima do esperado, demonstrando o apetite das empresas pelo potencial exploratório brasileiro 4, 1. O ágio médio nos lances foi de 534%, com casos de até 1.216% na Foz do Amazonas, evidenciando forte competição e otimismo em relação ao potencial dessas áreas 1.

Protagonismo da petrobras e avanço das multinacionais

A Petrobras, em consórcio com a ExxonMobil, liderou a aquisição de blocos na Foz do Amazonas, ficando com 10 blocos (cinco como operadora e cinco como sócia), além de três blocos na Bacia de Pelotas, em parceria com a PetroGal 5, 1. No entanto, a estatal foi responsável por apenas 37,6% das áreas arrematadas e por 24,2% delas na condição de operadora, participação considerada modesta por analistas do setor 6.

Essa configuração reforça o avanço das multinacionais sobre áreas estratégicas brasileiras, especialmente na Margem Equatorial, e levanta questionamentos sobre o papel do Estado na condução da política energética nacional 6, 7.

Margem equatorial: nova fronteira e velhos dilemas

A Margem Equatorial, sobretudo a Bacia da Foz do Amazonas, foi consagrada como a nova fronteira exploratória do país. O interesse das petroleiras se justifica pelo potencial de grandes reservas ainda inexploradas, comparáveis ao pré-sal em termos de expectativa de produção 1, 2. No entanto, a região é considerada uma das mais sensíveis do ponto de vista socioambiental, o que acirrou críticas de ambientalistas e especialistas em políticas públicas 7.

A condução do leilão sob o regime de concessão, em vez do regime de partilha adotado no pré-sal, foi alvo de críticas por parte de entidades como o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), que apontaram a ausência de debate público e a perda de controle estatal sobre uma riqueza estratégica 7, 6.

“A Margem Equatorial deveria ser tratada como o pré-sal: com planejamento, debate público e sob regime de partilha. Colocá-la sob concessão, como fez a ANP, é abrir mão da soberania e da capacidade de definir o destino dessa riqueza”, afirmou Mahatma Ramos, diretor técnico do Ineep 7.

Impacto fiscal e perspectivas econômicas

O resultado do leilão foi celebrado pelo governo como um importante reforço fiscal em meio à crise das contas públicas, com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacando o papel do setor de óleo e gás no equilíbrio orçamentário e na atração de investimentos 4, 3. O certame garantiu quase R$ 1 bilhão imediato aos cofres públicos, além de compromissos de investimentos que podem dinamizar a economia das regiões envolvidas 3, 4.

Desafios e recomendações

Apesar do sucesso financeiro, o leilão expôs fragilidades na política energética nacional. A participação reduzida da Petrobras, a predominância de multinacionais e a ausência de um debate mais amplo sobre o modelo de exploração e os riscos ambientais na Margem Equatorial são pontos que merecem atenção 6, 7. O desafio, daqui para frente, será conciliar a necessidade de arrecadação e desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e a soberania sobre recursos estratégicos.

Conclusão

O 5º leilão da ANP foi um sucesso do ponto de vista arrecadatório e de atração de investimentos, consolidando a Margem Equatorial como a nova aposta do setor petrolífero brasileiro. No entanto, o modelo adotado e a condução do processo levantam dúvidas sobre os rumos da política energética do país, especialmente em relação ao papel do Estado e à proteção de áreas sensíveis. O debate sobre o equilíbrio entre desenvolvimento, soberania e sustentabilidade segue mais atual do que nunca.

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Assessoria Cidadão Alerta

Citações:

  1. https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2025/06/17/leilao-da-anp-19-dos-47-blocos-na-bacia-da-foz-do-amazonas-sao-arrematados.ghtml
  2. https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/06/17/leilao-na-foz-do-amazonas.htm
  3. https://eixos.com.br/petroleo-e-gas/leiloes/leilao-da-anp-contribui-com-arrecadacao-de-quase-r-1-bilhao-em-meio-a-crise-fiscal-do-governo/
  4. https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202506/201crecorde-absoluto201d-comemora-silveira-apos-leilao-de-petroleo-e-gas-que-garante-r-1-bilhao-para-a-uniao-neste-ano
  5. https://agencia.petrobras.com.br/w/petrobras-informa-sobre-resultado-de-leilao-da-anp-1
  6. https://www.cartacapital.com.br/artigo/quinto-leilao-da-anp-foi-sucesso-financeiro-mas-reves-para-a-seguranca-energetica-nacional/
  7. https://www.brasildefato.com.br/2025/06/21/da-autossuficiencia-a-dependencia-leilao-de-petroleo-na-foz-do-amazonas-prejudica-soberania-ambiental-e-economica/
  8. https://www.presalpetroleo.gov.br/5o-leilao/
  9. https://istoedinheiro.com.br/governo-preve-arrecadar-r-25-bi-com-leilao-de-petroleo-da-ppsa-na-quinta
  10. https://www.gov.br/anp/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias-comunicados/anp-da-inicio-ao-5o-ciclo-da-oferta-permanente-de-concessao
  11. https://ppi.gov.br/anp-realiza-leilao-do-5o-ciclo-da-oferta-permanente-de-concessao-de-petroleo-e-gas-nesta-terca-17/
  12. https://www.gov.br/anp/pt-br/rodadas-anp/oferta-permanente/opc/5o-ciclo-da-oferta-permanente-de-concessao/resultados-5-opc
  13. https://www.epe.gov.br/pt/imprensa/noticias/epe-comparece-ao-5-ciclo-de-ofertas-de-blocos-exploratorios-da-anp
  14. https://www.conjur.com.br/2025-mai-30/alerta-do-mpf-e-cinco-acoes-tentam-suspender-leilao-de-petroleo-da-anp/
  15. https://agenciainfra.com/blog/anp-ve-espaco-para-novo-leilao-de-partilha-ainda-em-2025-edital-deve-sair-na-proxima-semana/
  16. https://cbn.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2025/06/17/anp-faz-leilao-de-172-blocos-para-exploracao-de-petroleo-e-gas-no-pais.ghtml
  17. https://www.poder360.com.br/poder-energia/anp-lanca-edital-para-leilao-de-partilha-do-pre-sal-com-13-blocos/
  18. https://www.youtube.com/watch?v=0REiulAxhsI