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‘Jeitinho brasileiro’ contradiz indignação popular contra a corrupção no setor público


publicada em 10 de abril de 2016
Esta matéria que foi publicada no Jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, no dia 12/02/2016 (créditos no final do texto), nos mostra que, apesar de tudo que está acontecendo no país no que diz respeito à corrupção, 25% da população ainda acha aceitável cometer certos delitos quando vêm alguma vantagem nisto. Nós da Cidadão Alerta condenamos qualquer ato que vá contra os preceitos de moral e ética em qualquer campo e trabalhamos para eliminar ou reduzir este tipo de comportamento. Leia a matéria a seguir:


Milhares vão às ruas protestar contra a corrupção, mas pequenos desvios e desobediências fazem parte do cotidiano do brasileiro



Sonegar impostos quando as taxas são elevadas é aceitável? E subornar um guarda para escapar de uma multa? O conceito de honestidade é relativo, a depender da situação com a qual se confronta?
Pelo menos um em cada quatro brasileiros diria que sim. Esse tipo de desvio de conduta, cotidiano e dissimulado, que chamamos de “jeitinho brasileiro”, evidencia a contradição entre a indignação popular em relação à corrupção no setor público e a relativização dos pequenos delitos e desobediências.
Duas pesquisas recentes mostram que os brasileiros têm dificuldade para compreender a noção de ética e distinguir o privado e o bem comum, o que pode explicar os dois pesos e duas medidas. O estudo conduzido pela Universidade de Brasília (UNB) revelou que 31% não entende a diferença entre o que é público e o que é privado. Já a pesquisa feita pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) descobriu que o desvio individual não é entendido como corrupção – por isso tanta gente considera sonegar impostos errado, mas não corrupto.

 “Ladeira escorregadia”

Especialistas explicam que a naturalização de desvios de conduta no dia a dia tem mais a ver com aspectos culturais, políticos e econômicos do que com caráter individual. O procurador do Ministério Público Federal (MPF) e integrante da força-tarefa da Lava Jato, Paulo Galvão, considera a impunidade o elemento decisivo na equação da corrupção, seja ela de grandes ou pequenas proporções.
“Pesquisas mostram que a corrupção é uma decisão racional, na qual o indivíduo pondera benefícios e riscos. Se os riscos são baixos, as pessoas cometem a corrupção”, explica. Galvão destaca ainda a metáfora slippery-slope (ladeira escorregadia), termo utilizado para descrever o comportamento corrupto: a cada desvio cometido e não punido, os limites morais tornam-se mais flexíveis e o próximo desvio, mais grave.
 
Tem diferença?

O assunto é espinhoso: muita gente faz, mas não admite; ou faz porque todo mundo faz; ou porque “tem coisa muito pior”. A dúvida sobre se existe diferença entre desviar dinheiro público ou pagar propina em processos licitatórios e declarar informações falsas ao Imposto de Renda ou subornar o guarda para evitar multas (duas das pequenas corrupções mais cometidas pelos brasileiros, segundo a Controladoria Geral da União) é comum.
O cientista social Robson Souza, da PUC-MG, esclarece que existe diferença, sim. As consequências geradas é que definem a maior ou menor gravidade da corrupção. No entanto, ele ressalta que os pequenos desvios no âmbito privado, mesmo sem intenção criminosa, repercutem formando uma cultura leniente e descrente da lei, legitimando a ação dos grandes corruptores e corruptos.

Caminhos possíveis

Para resolver esse problema, especialistas apontam dois caminhos: fiscalização e punição adequada para atos corruptos e educação. “Uma das medidas para inibir a corrupção seria aumentar a probabilidade de punição e a pena”, avalia Galvão, fazendo menção à campanha encampada pelo MPF, “Dez medidas contra a corrupção”, que pretende transformar atos corruptos em crime hediondo.
Na avaliação de Souza, uma mudança de comportamento mais efetiva demanda intervenções profundas nas estruturas de poder e no sistema educacional. “As escolas têm de ensinar noções de pertencimento e de esforço coletivo para formar pessoas críticas e comprometidas com sua comunidade”, aposta Souza.
Já o economista Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UNB), aponta a atuação do MP e da Polícia Federal no âmbito da Lava-Jato como embrionária de uma nova consciência coletiva. “Pode interferir positivamente, sim. Mas uma mudança dessas não acontece de uma hora para outra: envolve várias gerações e precisa acontecer tanto na sociedade civil quanto na política, no longo prazo.”

O custo social

As consequências de tornar a corrupção miúda tolerável afetam tanto as relações privadas e interpessoais quanto a coletividade. “O jeitinho brasileiro estimula uma competitividade exacerbada, cria um cenário em que a preocupação é obter vantagem em qualquer situação e a qualquer custo. De uma perspectiva social, se constrói uma sociedade sem apreço pelo espaço público, incapaz de reconhecer suas qualidades e despreocupada em contribuir para sua melhoria”, observa o cientista social Robson Souza, que estuda pequenas corrupções do cotidiano.

Colaborou Kelli Kadanus.

O brasileiro e a corrupção

A organização internacional Transparency International apurou a percepção social da corrupção em 168 países. No Brasil, revelou-se o descrédito da população em relação às instituições e aos poderes públicos:
70% dos brasileiros acham que a corrupção no setor público é um problema sério
81% consideram que os partidos políticos são corruptos ou extremamente corruptos
72% acham que o Legislativo é corrupto ou extremamente corrupto
50% acredita que o Judiciário é corrupto ou extremamente corrupto
70% considera a polícia corrupta ou extremamente corrupta
55% acha que o sistema e serviços de saúde são corruptos
81% acredita que o cidadão comum pode fazer a diferença na luta contra a corrupção
 
 
Pequenas corrupções

Para a campanha “Pequenas corrupções – Diga não”, a Controladoria Geral da União (CGU) elencou as dez práticas de corrupção mais comuns no cotidiano do Brasil:
- Não emitir nota fiscal 
- Declarar informações falsas ao Imposto de Renda 
- Tentar subornar o guarda para evitar multas 
- Falsificar carteirinha de estudante
- Dar/aceitar troco errado 
- Roubar TV a cabo 
- Furar fila 
- Comprar produtos falsificados 
- No trabalho, bater ponto pelo colega 
- Falsificar assinaturas
 
O problema da corrupção no Brasil começou na colonização portuguesa

Dois fatores podem ser destacados para se tentar compreender a origem da corrupção no Brasil: uma forte cultura nacional de rejeição ao que é público e a aplicação discricionária da lei, explica o cientista social Robson Souza, coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC-MG.
“É como se o Estado não devesse ser levado a sério. Há um desprezo arraigado pela coisa pública porque parece que ela não está a serviço da população. Se a coisa pública está servindo a interesses particulares, então o cidadão comum pensa que têm que dar um jeito de ‘garantir o seu’.
Em paralelo, a justiça seletiva estimula a sensação de impunidade. O raciocínio é ‘Se ninguém é punido por desvios milionários, eu é que não vou ser por não pagar esse imposto alto’.”
Para o economista Ricardo Caldas, do Instituto de Ciência Política e docente da UNB, a origem do desdém do brasileiro pelo Estado e pelas leis é histórica e remonta à colonização portuguesa.
 “A colonização não foi feita para a sociedade, foi feita para atender ao interesse da Coroa e de um grupo restrito associado à Coroa. É histórico. O brasileiro não se identifica com o Estado e, assim, a lei não é para ele, é para os outros. Não existe uma consciência nacional de benefício público, de interesse público”, avalia.


Matéria publicada no Jornal Gazeta do Povo em 12/02/2016
Créditos/Fonte/Origem:  Carolina Pompeo • [12/02/2016] Gazeta do Povo

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